quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Canadá, um país certinho

  Perfeição não existe em lugar nenhum, isso é fato. Ainda assim, a minha percepção é de que aqui é tudo muito correto e todos muito certinhos. E embora às vezes (poucas) isso incomode um pouco alguém acostumada com o jeitinho brasileiro, eu cheguei à conclusão que acho isso ótimo.

Lotação máxima
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Talvez eu já tenha comentado, mas no Early Years a lotação máxima é 50pessoas. E assim que entra a 50a., eles colocam uma plaquinha de Stop! na porta e já era. Não vai entrar, mesmo que tenha passado 5 minutos tirando 3 filhos e tralhas do carro e, por isso, alguém acabou entrando na sua frente. Sem choro nem vela. Já ficamos de fora algumas vezes por conta disso. Em alguns dos centros, eu achei que o lugar era bem grande, que caberiam mais de 50. Mas... regras são regras, não sei como chegaram nesse número e... só sei que é assim.

Sapatos no pé
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Na escolinha as crianças tinham que ficar o tempo todo calçadas, até pra dormir. O motivo é que, em caso de evacuação, todos tinham que estar prontos pra sair o mais rápido possível.

Piscina
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Aqui no prédio tem uma piscina. Algumas vezes fomos até lá e demos com a cara na porta. Eles fecham a piscina sempre que qualquer marcador não está com os níveis corretos. Seja de cloro, de temperatura ou transparência da água.Às vezes parece bobo, mas é tudo em prol da segurança.

Espirros
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Aqui desde pequenas as crianças aprendem a espirrar na dobra do cotovelo e não na mão, como eu aprendi. Exagerado, mas faz sentido, já que a mão da gente encosta em tudo, espalhando germes por aí. Esses tempos uma colega brasileira estava no elevador, espirrou e, instintivamente, colocou a mão na frente. Levou a maior bronca da mulher que estava junto no elevador. Quando saíram, a mulher apontou para um daqueles trequinhos (como se traduz dispenser?) de gel bactericida e falou pra minha amiga higienizar a mão antes de encostar em qualquer coisa.

Boas maneiras
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  No Early Years sempre vejo as outras mães ensinando boas maneiras aos filhos. As frases são sempre: "Você tem que compartilhar", "Peça desculpas", "Espere a sua vez", "Peça licença" e por aí vai. É assim o tempo todo. Ah, lembram da piadinha? "Como é que você identifica um canadense em uma sala cheia de gente? É só sair pisando no pé de cada um deles e ver qual pede desculpas pra você". Não é que um dia esses acabei observando isso na prática? Eu tava no mercado e não lembro como acabei pisando no pé de uma mulher. E sim, ela me pediu desculpas!!! Não sei se foi instinto ou se ela achou que estava no meio do caminho e, por isso, a culpa tinha sido dela.

Vagas especiais
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  As vagas de estacionamento para cadeirantes são respeitadas!!


  Mas na verdade comecei a escrever este post depois que li a notícia de que 3 prédios desabaram no Rio de Janeiro. Ainda não se sabem os motivos, mas já encontraram algumas irregularidades em obras. Precisa falar mais? Não é a primeira vez nem segunda que vemos uma notícia desse tipo no Brasil. Teve desabamento até em obras do aeroporto em Guarulhos. E sempre encontram irregularidades, regras não cumpridas. Nessas horas fico feliz em morar em um país tão certinho. Mesmo que isso implique em colocar capacete no meu filho, pra ele andar de triciclo.
  Fui procurar no google por "building collapsed in Canada", mas não achei nada. Ou nenhum prédio nunca desabou por aqui, ou eu que não soube procurar direito. Mas vi que uma quadra desabou esses dias na Eslováquia. E achei vááários desabamentos no Brasil.


  Continuando a sessão de divagações, fiquei pensando que a causa de muitos males é a mania das pessoas não se conformarem com o que têm. Sempre querem mais. Sempre querem o que não têm. E às vezes tomam à força. Como os ladrõezinhos que roubam tênis de marca. Como as mulheres que roubam roupas caras em lojas. Como as pessoas que compram cds piratas ou só assistem filmes roubados via internet.
  Muitas pessoas vão ficar indignadas com o desabamento dos prédios, com a corrupção, com o super faturamento de obras... mas à noite, pra relaxar, vão lá baixar mais um episódio de suas séries favoritas. Como se ética fosse apenas para os outros.

  Pior ainda é ver pessoas que não precisam roubar/trapacear e ainda assim o fazem. Pessoas que trabalham, ganham dinheiro suficiente pra assinar tv cabo e comprar seus seriados mas, ainda assim, pegam via internet. E são as mesmas pessoas que ficam indignadas ao ver políticos que já são tão ricos e ganham tão bem, roubando e trapaceando.
 
  Me lembrei de um episódio da minha infância. Eu tinha uns 10 ou 11 anos e, um dia, algum professor ou funcionário esqueceu em algum lugar da escola uma caixa com um monte daquelas canetinhas coloridas que servem pra marcar texto. As crianças da minha turma foram lá em peso pegar as canetinhas e guardavam rapidamente nas mochilas. E eu só olhando sem entender nada, pensando: "Por que esses meus amiguinhos que pareciam tão legais estão roubando as canetinhas?".
  Eu era uma criança certinha...Mas virei uma adolescente que também não se contentava com o que tinha e baixei muitas músicas e filmes pela internet. Até que... vi a luz e parei. Voltei a ser certinha. Já teve muita gente que disse que eu era muito politicamente correta. Pra essas pessoas eu respondo: "Obrigada, com muito orgulho. Espero que você também chegue lá". :-) Vejam, nunca disse que sou perfeita. Mas não custa nada a gente tentar levar uma vida com mais ética, certo?

  Praticamente ninguém tem tudo o que quer. Que isso seja sua motivação, que te faça trabalhar, que te faça estudar, que te faça querer progredir. Enquanto isso, aceite que não dá pra ter tudo na vida e fique feliz com o que você tem. Não espere chegar ao leito de morte, pra só então perceber que era feliz e não tinha percebido. Vire uma pessoa certinha você também, passe isso para os seus filhos. Nunca é tarde para começar.

8 comentários:

  1. Isso aqui na Alemanha se chama ter "consideração". AS crianças são ensinadas desde cedo a ter consideração pelos vizinhos, pelos mais velhos, estranhos, etc. Então aprendem que não podem gritar para não incomodar e isso vai até o extremo de em alguns lugares não se poder tomar banho à noite, para o barulho da água não atrapalhar o sono alheio, ou os cachorros serem ensinados a não latir para não incomodar o vizinho. Mas é legal ver esta consideração toda em prática no dia-a-dia. Coisas triviais como esperar as pessoas sairem do metrô antes de você entrar, segurar a porta para não bater na cara da pessoa que está vindo atrás de você, cuidar do seu jardim para que o vizinho não tenha que ver um jardim bagunçado e coisas assim.

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  2. É difícil encarar comportamentos bacanas como "típicos" de um lugar... eu sempre achei que nasci no país errado, mas na verdade, acho que nasci é sonhadora demais porque acho que boas maneiras, cordialidade e tudo mais deveriam ser uma coisa intrínseca do ser humano. Não que acho que a gente nasça com isso, mas queria que fosse uma coisa que todos os pais tivessem bem claro que precisam ensinar para os filhos e assim, naturalmente, ser bem-educado seria natural do ser humano.
    Mas não é bem assim, não é verdade? E no Brasil não é bem assim mesmo! ;-(

    Que bom que encontraram um lugar mais certinho!
    De tanto fazer propaganda do que vocês comentam, daqui a pouco o Sérgio vai querer emigrar também!

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    1. Verdade, Alessandra. Eu também sempre me sentia peixe fora da água no Brasil, porque fazia questão de não colar na escola, não jogar lixo no chão (mesmo em lugares que já estavam sujos) e por aí vai.
      E uma das soluções pra quando a gente nasce no lugar errado, é mudar pro país certo, rsrsrs. :-)

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  3. É triste mas é uma grande verdade, o Brasil é um país de mal educados, o povo daqui não tem um pingo de educação, cada um se preocupa apenas com o seu "imbigo" e não está nem aí para o problema do outro. E eu falo isso com a absoluta certeza de que estou certa, principalmente porque trabalho na área pública, atendendo o público e pior: na área da saúde, onde as coisas se tornam terrivelmente piores, pois a minha doença é sempre mais importante e mais grave do que a sua. Hoje mesmo tive que responder a uma reclamação da ouvidoria, onde dizia que eu não atendi uma gestante e que fui grosseira com ela; ela reclamou pelo simples fato de eu ter pedido para ela "aguarde um minuto por favor" pois ela simplesmente interrompeu, sem pedir ao menos licença, um atendimento que eu estava fazendo a outro usuário. Outro caso super comum, aqui ninguém conhece fones de ouvido, em qualquer lugar tem um ser ouvindo uma música, geralmente ruim, no celular em nível máximo. Respeito a vagas de idoso ou deficiente?? Rá! Esquece! Catar o cocô do cachorro? Pra quê? Nessas horas eu me entristeço e tenho vontade de sumir. Respeito ao próximo é um ato inexistente. Lamentável!!!!!

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    1. Nossa, bem lembrado. Aqui todo mundo usa fone de ouvido. Sempre vejo no metrô, ônibus, na rua, na praia...
      E essa reclamação aí, hein? A tal gestante deve ter achado que prioridade significa ser atendida imediatamente. Não é por aí, obviamente.

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  4. Oi Camilla..coisa boa criar filho num lugar assim...com respeito, educação, ética...é legal demais...sempre achei q era a mais certinha do mundo...mas vejo q não sou não....baixo minhas séries...hahaha, mas não sou das piores pessoas, acho q sou certinha acima da média...mas vc está corretíssima nas colocações..hahaha...bjocas

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    1. Hehehe. Isso me lembra a minha teoria de que somos todos coluna do meio. :-) Mas eu tenho fé em você, Aline. Você ainda vai parar de baixar séries, rsrsrs. Beijo!

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  5. Oi Taia. Por aí, acho que só falta os alemães aprenderem a ter um pouco mais de "consideração" com as crianças. :-) Pode ser só impressão, mas pelo que você conta elas não fazem muito sucesso...
    E essa de cuidar do seu jardim para o seu vizinho não ter que ver um jardim feio é realmente estranho. Quer dizer, à primeira vista é estranho, até a gente se acostumar com a ideia. Aqui os bairros também têm regras para corte de grama, limpeza da neve, etc. Pode dar trabalho, mas por causa disso as ruas são bonitas e agradáveis. É um trade off que compensa, na minha opinião.

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